Carta Pastoral às ministras e ministros das igrejas cristãs e a todas as pessoas de boa vontade que buscam servir com fidelidade ao Cristo vivo - 16/05/2025
IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ANGLICANA
Carta Pastoral às ministras e
ministros das igrejas cristãs e a todas as pessoas de boa vontade que buscam
servir com fidelidade ao Cristo vivo.
Amadas irmãs e amados irmãos no
serviço do Reino,
Saudações na paz de Cristo, nossa
luz, fundamento e cabeça da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Com espírito fraterno e
reverente, saudamos a iniciativa de Dom Rafael Moraes, cuja Carta Pastoral
recentemente publicada em suas redes sociais expressa uma reflexão necessária e
corajosa sobre a maturidade eclesial, a centralidade de Cristo na vida da
Igreja, e o lugar legítimo e dinâmico das comunidades cristãs que vivem e
testemunham o Evangelho fora da estrutura e do controle de Roma.
Como IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA
ANGLICANA, desejamos somar nossa voz a essa reflexão, reafirmando nosso
compromisso com a verdade evangélica, com a liberdade espiritual, e com a
responsabilidade pastoral de dialogar com os tempos, os sinais e os clamores
que emergem do coração do povo de Deus.
CRISTO, E NÃO OUTRO, É
A CABEÇA DA IGREJA
Em nossa tradição anglicana,
confessamos com toda a cristandade que Cristo Jesus é a cabeça da Igreja
(Ef 5,23), fundamento insubstituível da fé (1Cor 3,11), e único mediador entre
Deus e os homens (1Tm 2,5). Nenhuma autoridade humana, por mais venerável que
seja, pode ocupar esse lugar sagrado que pertence ao Cordeiro de Deus. Por
isso, rejeitamos toda forma de idolatria eclesiástica — seja em torno do
papado, de bispos, patriarcas, primazes ou líderes carismáticos. Como nos
lembra John Stott, teólogo anglicano:
“A autoridade da Igreja deriva da
Escritura e é servidora da Palavra, não senhora sobre ela.”
O NOSSO ETHOS ANGLICANO:
UNIDADE NA DIVERSIDADE
A tradição anglicana foi moldada
pela tensão criativa entre catolicismo e reforma. Valorizamos a sucessão
apostólica, a liturgia sacramental, a razão teológica e o respeito à
consciência. Somos uma comunhão que busca viver a fé dos apóstolos com
espírito de liberdade e responsabilidade comunitária. Como afirmava Rowan
Williams, ex-arcebispo de Cantuária:
“Ser anglicano é habitar o espaço
do encontro, onde a diversidade não é ameaça, mas dom.”
Nesse sentido, reconhecemos a
ação de Deus em diversas tradições cristãs — católicas, anglicanas, ortodoxas,
reformadas, pentecostais, veterocatólicas e independentes — pois “o Espírito
sopra onde quer” (Jo 3,8), como nos ensina o próprio Cristo.
LIVRE-ARBÍTRIO: DOM DE DEUS
PARA O DISCERNIMENTO
Acreditamos firmemente que Deus
nos criou livres, e essa liberdade inclui a capacidade de crer, de amar e
de servir de maneira voluntária. A adesão ao seguimento de Jesus não deve ser
imposta, mas acolhida com o coração disponível. Como ensina Agostinho
de Hipona:
“Aquele que te criou sem ti, não
te salvará sem ti.”
A fé que brota do amor é viva; a
que nasce do medo, é servil.
A IGREJA COMO TEMPLO VIVO, NÃO
APENAS INSTITUIÇÃO
Nosso entendimento de Igreja
ultrapassa qualquer modelo institucional. Como afirma o apóstolo Paulo:
“Acaso não sabeis que sois templo
do Espírito Santo?” (1Cor 6,19).
A Igreja é o povo, o Corpo
Místico de Cristo, e o Espírito Santo atua nas pessoas e por meio das pessoas,
muito mais do que por meio de decretos ou edifícios. Mais importante que
templos lotados é um povo cheio de Deus. Como dizia William Temple,
arcebispo de Cantuária:
“A Igreja existe para o benefício
daqueles que ainda não fazem parte dela.”
A missão é para fora, não para dentro.
SUCESSÃO APOSTÓLICA:
FIDELIDADE À MISSÃO, NÃO EXCLUSIVISMO
Comungamos da compreensão de que a
sucessão apostólica não é monopólio romano, mas um dom da Igreja universal,
visível onde há fidelidade à fé, continuidade sacramental e compromisso com o
Evangelho.
Richard Hooker, pilar do
anglicanismo clássico, afirmou:
“A verdadeira Igreja está onde se
prega a Palavra, se celebram os sacramentos e se busca a caridade.”
O próprio Concílio Vaticano II
reconheceu, em espírito ecumênico, que “muitos elementos de santificação e de
verdade se encontram fora dos limites visíveis da Igreja Católica” (Lumen
Gentium, 8) referindo-se à ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana).
É urgente e pastoralmente
necessário reafirmar que a Igreja de Cristo subsiste também nas muitas
comunidades cristãs espalhadas pelo mundo, que mantêm a fé e a missão
evangélica. A lógica da comunhão deve prevalecer sobre a lógica do controle.
RESPEITO A TODAS AS IGREJAS E
RELIGIÕES
Como seguidores de Cristo, cuja
compaixão alcançava samaritanos, centuriões e cananeias, reafirmamos nosso
compromisso com o respeito interdenominacional e inter-religioso.
Não temos medo do diálogo com o diferente, pois “o amor lança fora todo o
medo” (1Jo 4,18).
Recordamos com gratidão a palavra
profética de Desmond Tutu, arcebispo anglicano e Nobel da Paz:
“Deus não é cristão.”
Essa afirmação, longe de negar a
fé cristã, nos recorda que Deus é maior do que qualquer religião, e que
o Espírito do Senhor habita em todas as culturas, busca todos os corações e se
revela onde há justiça, paz e verdade.
UMA CHAMADA À CONSCIÊNCIA
ECLESIAL MADURA
Com alegria, acolhemos os irmãos
e irmãs das Igrejas Católicas Nacionais que buscam viver sua missão com
dignidade, fidelidade ao Evangelho e independência pastoral. Não há mais
tempo para nostalgias ou dependências simbólicas. A liberdade do Espírito é
também chamada à responsabilidade.
Como disse Jürgen Moltmann:
“A Igreja é apostólica quando
vive da força do Espírito que envia, não apenas por conservar uma estrutura que
herda.”
Não é Roma, nem Cantuária, nem
Constantinopla que nos fazem Igreja. É Cristo. Ele é o centro, a razão e o
horizonte.
ORAÇÃO
Rezemos, pois, pela unidade na
diversidade, pela paz entre todos os povos, e pelo respeito entre todas as
crenças:
Deus da vida,
que nos criaste em tua imagem e
nos chamaste à liberdade,
envia teu Espírito sobre tua
Igreja dispersa em tantas formas,
para que sejamos um na fé,
múltiplos no serviço,
e fiéis no amor.
Ensina-nos a ver tua face em toda
criatura,
a honrar o que é sagrado no
outro,
e a buscar sempre a reconciliação
e a justiça.
Por Cristo, nosso único Senhor,
que vive e reina contigo e com o
Espírito Santo,
Deus de todos e todas, para
sempre. Amém.
Em Cristo e pela missão da Igreja
Una, Santa, Católica e Apostólica,
Na liberdade do Espírito,
Na comunhão dos santos,
Conselho Episcopal Primacial
da IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ANGLICANA
16 de maio de 2025

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