FÉ E POLÍTICA
* Por Reverendo Luciano Campelo
Inicio agradecendo a Dom Eduardo
Faria pelo convite e desafio de escrever sobre tema tão importante como Fé e
Política. Confesso que sinto ser mais fácil falar sobre isso nas conversas
entre amigos e familiares, colegas da faculdade e trabalho. Mas, enfim, gosto
de desafios. Então vamos lá expor minha percepção pessoal deste tema a partir
das minhas experiências de vida.
Tenho 50 anos e, aos 10 já estava
militando no movimento estudantil secundarista protestando nas ruas contra
aumentos abusivos da tarifa de transporte público, dentre outras ações. O
exercício de minha cidadania desde tão jovem decorre do meu entendimento de que
a fé alcança sua credibilidade diante de Deus e dos homens e mulheres quando
unida a uma prática que esteja efetivamente em consonância com os valores do
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A fé é um componente central na
vida moral e espiritual das pessoas, logo, nosso comportamento ético deve ser
reflexo daquilo que cremos guiado por um senso de propósito do nosso
comportamento na sociedade assim como na igreja e na família.
Ao meu ver e sentir, as pessoas
de fé tem papel fundamental na construção de uma sociedade justa e fraterna,
bem como na promoção de valores positivos que fortaleçam os laços sociais e a
promoção da solidariedade mútua entre as pessoas e, consequentemente, isto se
reflita nas ações do Estado cujo poder é exercido por homens e mulheres à
frente das instituições políticas.
Os valores de fé podem e devem
influenciar a política, desde que isso seja feito de maneira a respeitar a
diversidade religiosa e a laicidade do Estado. A política deve ser conduzida de
acordo com princípios éticos que frequentemente são encontrados em ensinamentos
religiosos.
“O que me preocupa não é o grito
dos maus. É o silêncio dos bons.” Este pensamento do pastor batista
estadunidense Martin Luther King demonstra que as pessoas de fé não podem se
omitir diante das injustiças. Semelhantemente, o bispo anglicano africano
Desmond Tutu afirma que “se você fica neutro em situações de injustiça, você
escolhe o lado do opressor”. Assim concluímos que a omissão não é e nunca
poderá ser uma opção para as pessoas de fé diante dos problemas sociais que só
podem ser resolvidos a partir do exercício da cidadania, logo, acompanhando e
fazendo política por meio do voto e de uma militância social coerente, se
engajando nas discussões e ações visando sempre o bem comum.
A relação entre fé e política é
um tema central na Teologia da Libertação da qual sou adepto desde os tempos de
minha atuação na Pastoral de Juventude, uma corrente teológica que emergiu na
América Latina na década de 1960, buscando conciliar a mensagem cristã com a
luta pelos direitos humanos, justiça social e libertação dos oprimidos. Nesse
contexto, as ideias de Frei Betto e Leonardo Boff desempenham papéis
significativos, oferecendo percepções valiosas sobre como a fé pode inspirar a
ação política.
Frei Betto, frade dominicano,
escritor e ativista brasileiro, enfatiza a importância da práxis, ou seja, da
ação transformadora, como expressão genuína da fé cristã. Para ele, a fé não é
apenas uma questão de crença individual, mas deve se manifestar em compromisso
com a justiça e solidariedade para com os mais pobres e marginalizados. Betto,
assim como eu, defende uma participação ativa na política como uma extensão do
mandamento de amar ao próximo, buscando construir uma sociedade justa e
fraterna.
Leonardo Boff, por sua vez, é um
teólogo brasileiro, ex-frade franciscano e defensor incansável dos direitos
humanos e da ecologia. Sua abordagem enfatiza a dimensão ecológica da fé e a
importância da relação harmoniosa entre seres humanos e a natureza. Boff também
destaca a necessidade de uma "ecoteologia", que integre as
preocupações ambientais com a ética social e política, promovendo uma visão
holística da justiça e da salvação. Franciscano que sou, enfatizo tais ideias
como absolutamente necessárias à defesa da nossa casa comum, o planeta, e toda
a vida nele existente diante da crença que devemos amar e respeitar toda a
criação de Deus.
Assim como eu, Betto e Leonardo
Boff compartilham a visão de que a fé cristã não pode ser divorciada das
questões políticas e sociais. A verdadeira fé impulsiona a ação em prol da
transformação das estruturas injustas da sociedade. Isso implica não apenas em
ajudar os pobres e marginalizados, mas também em identificar e confrontar as
causas estruturais da injustiça, como a concentração de poder e riqueza, o
colonialismo, o patriarcado e a degradação ambiental.
A fé e a política não são esferas
separadas, mas interdependentes. A fé autêntica se traduz em compromisso
político, e a política, quando guiada pela ética e pelos valores do Evangelho,
pode se tornar um instrumento poderoso de transformação social e construção do
Reino de Deus na terra.
Leitura atenta dos Evangelhos de
Jesus Cristo fornecem um terreno fértil para reflexões sobre a intersecção
entre fé e política, destacando princípios que podem inspirar o exercício da
cidadania e a participação política responsável. No cerne da mensagem
evangélica está o chamado ao amor, à justiça e à solidariedade, valores que têm
implicações profundas para a vida em sociedade e para o engajamento político.
Jesus Cristo, ao longo de seu
ministério terreno, não se abstinha das realidades políticas de sua época. Ele
confrontava as estruturas de poder estabelecidas, desafiava a injustiça e
defendia os oprimidos. Sua mensagem de amor ao próximo e de busca pela justiça
ecoa até os dias de hoje, inspirando cristãs(os) a se envolverem ativamente na
construção de uma sociedade mais justa e compassiva.
A parábola do Bom Samaritano, por
exemplo, ensina sobre a importância de estender a mão ao próximo em
necessidade, independentemente de sua origem ou condição social. Isso nos
lembra do dever de solidariedade para com os marginalizados e desfavorecidos, uma
dimensão essencial da participação política.
Da mesma forma, o Sermão da
Montanha oferece um guia ético para a vida em comunidade, incentivando a
humildade, a compaixão e a promoção da paz. Esses princípios têm implicações
políticas claras, desafiando a ganância, a violência e a injustiça sistêmica.
Além disso, Jesus frequentemente
se posicionava contra a hipocrisia dos líderes religiosos e políticos de sua
época, denunciando a corrupção e a exploração dos mais vulneráveis. Seu exemplo
nos convida a uma postura crítica e vigilante em relação ao exercício do poder,
bem como à defesa dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas.
Ao mesmo tempo, os Evangelhos nos
lembram da importância da oração e da busca pela sabedoria divina na tomada de
decisões políticas. Jesus frequentemente se retirava para lugares isolados para
orar e buscar orientação espiritual. Isso nos lembra da necessidade de cultivar
uma consciência moral e espiritual em meio às complexidades da vida política.
Em resumo, os ensinamentos de
Jesus Cristo nos Evangelhos oferecem um fundamento sólido para o exercício da
cidadania e da participação política. Eles nos desafiam a agir com amor,
justiça e compaixão, a nos posicionarmos contra a injustiça e a opressão, e a
buscarmos a sabedoria divina em nossas decisões e ações políticas. Ao seguir
esse exemplo, os cristãos podem se tornar agentes de transformação social e
construtores do Reino de Deus na terra.
A relação entre fé e política é,
bem verdade, um tema complexo e de grande relevância histórica, especialmente
quando se considera o impacto de líderes religiosos que atuaram politicamente
para promover mudanças sociais. Um exemplo notável dessa interseção é Martin
Luther King Jr., cujo legado continua a inspirar movimentos de justiça social e
direitos civis em todo o mundo.
Martin Luther King Jr. foi um
pastor batista e líder ativista que se tornou uma figura central no movimento
pelos direitos civis nos Estados Unidos durante os anos 1950 e 1960. Sua fé
cristã foi a base de sua filosofia de não-violência e resistência pacífica,
influenciada por ensinamentos bíblicos e pela doutrina de desobediência civil
de Mahatma Gandhi. King acreditava que a fé não era apenas uma questão de
espiritualidade pessoal, mas uma força transformadora capaz de moldar
sociedades e promover a justiça.
A convicção de King de que todos
os seres humanos são iguais aos olhos de Deus foi a pedra angular de sua luta
contra a segregação racial e a discriminação. Ele via a injustiça racial como
um pecado moral e espiritual que precisava ser confrontado tanto na igreja
quanto na arena pública. Seu famoso discurso "Eu Tenho um Sonho" (I
Have a Dream), proferido durante a Marcha sobre Washington em 1963, ressoou com
visões de uma sociedade onde as pessoas seriam julgadas pelo conteúdo de seu
caráter, e não pela cor de sua pele.
King utilizou sua plataforma como
pastor para mobilizar comunidades, organizar protestos pacíficos e realizar
campanhas de desobediência civil. Ele acreditava que a mudança verdadeira e
duradoura só poderia ser alcançada através de meios pacíficos e da construção
de pontes de entendimento e respeito mútuo. Sua abordagem de protesto
não-violento foi fundamental para o sucesso de várias campanhas, incluindo o
boicote aos ônibus de Montgomery e as marchas de Selma a Montgomery.
O impacto de Martin Luther King
Jr. vai além das fronteiras dos Estados Unidos. Sua combinação de fé e política
inspirou movimentos de libertação em diversos países, mostrando que a fé pode
ser uma força poderosa para a transformação social. King demonstrou que a
liderança moral e ética é essencial na política e que os princípios religiosos
podem guiar a busca por justiça e igualdade.
A fusão entre fé e política deve
usar a crença religiosa como um catalisador para a mudança social. Nosso agir
diário deve ser sempre um testemunho de como a fé pode inspirar ações políticas
que promovam a dignidade humana e os direitos civis.
No Brasil, temos vários exemplos
de lideranças religiosas que se destacaram por inspirar militância política e
social. Além de Frei Betto e Leonardo Boff, temos Dom Hélder Câmara, Arcebispo
de Olinda e Recife, que foi um fiel defensor dos direitos humanos e um crítico
feroz da ditadura militar brasileira.
Dom Paulo Evaristo Arns,
Arcebispo de São Paulo, foi um importante defensor dos direitos humanos durante
a ditadura militar. Ele criou a Comissão Justiça e Paz e ajudou a documentar as
violações de direitos humanos durante esse período.
Zilda Arns, Fundadora da Pastoral
da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, foi uma médica e sanitarista que
dedicou sua vida à melhoria das condições de vida das crianças e idosos no
Brasil. Seu trabalho teve um grande impacto social e político, influenciando
políticas públicas de saúde e assistência social.
Dom Pedro Casaldáliga, Bispo
emérito de São Félix do Araguaia, foi um grande defensor dos direitos dos povos
indígenas e dos trabalhadores rurais. Sua atuação foi marcada pelo combate à
violência no campo e pela defesa dos direitos humanos.
Irmã Dorothy Stang, Missionária
americana naturalizada brasileira, foi uma ativista pelos direitos dos
trabalhadores rurais e defensora da Amazônia. Ela foi assassinada em 2005
devido à sua luta contra a exploração ilegal de terras e madeiras.
Essas lideranças religiosas não
só inspiraram, mas também participaram ativamente de movimentos sociais e
políticos no Brasil, deixando um legado significativo de luta por justiça,
igualdade e direitos humanos, valores extraídos da mensagem de Jesus Cristo.
Que este texto ajude-nos a
refletir sobre a importante e necessária atuação política de cada qual de nós
em nome da nossa fé e do nosso compromisso com as causas do Reino de Deus que,
como bem diz nosso Arcebispo Primaz Dom Eduardo, também é nosso.
* Reverendo Luciano Campelo é
clérigo da Igreja Anglicana do Brasil, Reitor da Paróquia Santíssima Trindade
em Ilhéus/BA e frade franciscano na Ordem Ecumênica Companheiros de Jesus onde responde pelo nome religioso "Frei Leão da Libertação".

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